• J.V. Vicente

Demolidor: 3ª Temporada | Crítica – A joia da coroa Marvel Netflix

Na terceira temporada de Demolidor tivemos o embate decisivo entre Demolidor e Rei do Crime. (Imagem: Netflix/Reprodução)

As séries da Marvel Netflix estão passando por uma fase nebulosa desde o fracasso das primeiras temporadas das séries "Punho de Ferro" e "Defensores". Recentemente, após segundas temporadas de padrão aceitável, as séries do guerreiro de K'un Lun e de Luke Cage foram canceladas pelos produtores do canal streaming, deixando o futuro desse universo incerto.

Apesar disso, a série do personagem que estreou nesse universo, o Demolidor, continua sendo o primeiro e maior acerto na Netflix com a Marvel. Depois de uma segunda temporada com o padrão mais baixo que o da primeira, mesmo assim com alta qualidade, a trama do Demônio de Hell's Kitchen voltou com tudo, apresentando maior evolução narrativa, agora que os personagens já são conhecidos do público.

Com um roteiro bem planejado e cenas bem conduzidas, Demolidor mantêm seu papel como a melhor das séries Marvel Netflix. As cenas de ação são tensas e angustiantes e cada personagem teve seu arco evoluído. A história não é apenas eficiente, como satisfaz qualquer fã de quadrinhos. Existem cenas onde as HQs de Frank Miller ganham vida; destaque para a cena do confronto final entre o vilão e o protagonista.

O arco "A Queda de Murdock" parece ter sido retirado 100% dos quadrinhos na questão visual. (Imagem: Marvel Comics / Netflix / Reprodução)

Charlie Cox mostra novamente que é um dos melhores atores de adaptações de quadrinhos. Sua atuação não apenas transparece, mas conecta o público à raiva e conflito do protagonista. Nessa fase, a trama apresenta um Matt Murdock quebrado e sem esperança, que rejeitou Deus e mergulhou em sua escuridão. O roteiro faz um bom trabalho apresentando as sombras da alma de Matt. De fato, a intensidade do trabalho do ator é uma das razões para o personagem ser um dos melhores desse universo. Inclusive, nos leva a pensar o por quê do mesmo não ser incluído no MCU, devido a qualidade do personagem e do grau de atuação de Cox.

Charlie Cox demonstra a cada temporada que nasceu para interpretar o Demônio de Hell's Kitchen. (Imagem: Marvel / Netflix)

Não a dúvida que "Demolidor", "Jessica Jones" e "Justiceiro" são as melhores séries da Marvel Netflix, porém, após excelentes primeiras temporadas, as séries tiveram um desempenho mais fraco em seu segundo ano. Aliás, não são temporadas ruins, mas elas não alcançam um grau de excelência maior pela mesma razão. Assim como a segunda temporada da série da heroína detetive sofreu com a ausência da interação entre a detetive e Kilgrave, o terceiro ano da série do vigilante mostra que um dos grandes pontos fortes da trama é a dinâmica de herói e vilão que existe entre Matt Murdock e Wilson Fisk.

O ator Vincent D'Onofrio retorna como o principal vilão da série e seu trabalho continua excepcional. O Rei do Crime volta aos holofotes com muito mais destaque desta vez. Se na primeira temporada a série escorregou em abordar o lado intelectual do personagem, deixando essa característica para James Weley (Toby Leonard Moore), agora a narrativa introduz como a inteligencia de Wilson Fisk é proporcional a sua força. O Rei do Crime mostra o máximo de seu potencial como o mestre da manipulação. O mafioso vê tudo; sabe tudo; e controla tudo. Não só sendo um personagem complexo, a atuação magnifica de D'Onofrio gera a empatia do publico; existem momentos onde você odeia profundamente o criminoso e outros em que você simpatiza e sente o receio pelos seus problemas. Seus discursos tocantes ao falar de seu amor por Vanessa mostram que apesar de brutal, o personagem tem humanidade.

Wilson Fisk, O Rei do Crime, se estabeleceu 100% como um dos maiores vilões de todo MCU. (Imagem: Marvel / Netflix)

A surpresa da temporada fica para Foggy Nelson (Elden Henson). O melhor amigo de Murdock deixa seu papel de coadjuvante passivo. O público tem a chance de desenvolver uma relação com Nelson e sua história deixa de depender apenas da amizade com o protagonista. O personagem muitas vezes rouba a cena e lidera a situação, motivando o otimismo e a esperança no que é certo. Todavia, sua trama individual mostra que o roteiro acertou, deixando ainda uma conexão direta com o Demolidor e Wilson Fisk.

Murdock, Page e Nelson finalmente voltaram a trabalhar juntos e em harmonia, mesmo após muito sofrimento. (Imagem: Marvel / Netflix)

Por outro lado, Karen Paige (Deborah Ann Woll) continua sendo uma personagem que não se sustenta sozinha. Existe um episódio dedicado a explorar seu passado, uma ferramenta narrativa já usada antes pelas séries da Netflix, e, como na maioria desses capítulos, a narrativa não agrada. Mesmo a tragédia pessoal da personagem não é o bastante para desenvolver a empatia do público. Assim como na série Justiceiro, o melhor da jornalista se apresenta quando ela está junto de outros personagens; destaque para a relação aprendiz e mentor que ela tem com Mitchell Ellison (Geoffrey Cantor). Vale o destaque também para o número de episódios, onde mais uma vez a Netflix prefere "encher linguiça" com 13 ao invés de resolver tudo de maneira mais coesa.

Os personagens inéditos que foram apresentados não deixam por menos. Destaque para o agente do FBI, Ray Nadeem (Jay Ali), que começa como um antagonista pé no saco e acaba por ter um arco de redenção extraordinário. Essa temporada introduz também um dos maiores vilões da mitologia do Demolidor, o Mercenário. Quem ainda tiver lembranças ruins com o filme de 2003, onde o vilão foi interpretado por Colin Farrell, vai apaga-las no momento que vir o macabro Agente Poindexter (Wilson Bethel). A narrativa usou de ferramentas perfeitas para abordar a instabilidade mental e as habilidades extraordinárias do personagem. A jornada do vilão de Dex se assemelha a de Billy Russo na série "Justiceiro". A unica falha é que a forma como o agente é manipulado por Wilson Fisk parece um tanto forçada. Entretanto, com o gancho deixado na cena final da temporada, a expectativa é que possamos ver seu potencial ser ainda mais explorado no futuro.

Apesar dos mais saudosistas sentirem falta de um traje, a Netflix soube adaptar muito bem o vilão Mercenário e suas habilidades. (Imagem: Marvel / Netflix)

Outros personagens conhecidos dos fãs que fazem parte do arco pessoal de Murdock são o Padre Lantom (Peter McRobbie) e a Irmã Maggie (Joanne Whalley). O papel deles como suporte familiar de Murdock é uma das melhores coisas na história. Os personagens são empáticos e apresentam arcos dramáticos que contribuem para a construção do protagonista. Mesmo que Matt tenha crescido praticamente sem família, é notável o sentimento e respeito que ele tem por essas figuras. Aliás, o sentimento materno acaba por ser o grande destaque.

Mesmo com pouco tempo de tela, a Irmã Maggie rouba a cena na terceira temporada de Demolidor. (Imagem: Marvel / Netflix)

Com uma trama que explorou o passado e desvendou todos os segredos dos personagens, a 3ª temporada de Demolidor é a melhor de todas até agora. Mesmo apresentando alguns defeitos rasos, o cuidado e a caracterização dos personagens compensam qualquer coisa. Aguardemos uma 4ª temporada, visto que com os cancelamentos recentes, o futuro do universo Marvel Netflix segue ameaçado.

Independente das outras séries do universo, exceto por algumas referencias rápidas, Demolidor continua sendo a joia da coroa. Por isso, uma coisa é certa: ele merece sim um espaço no MCU junto aos Vingadores.

Nota: 4,5/5

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