• Alexandre Agassi

O legado de O Império Contra-Ataca


Essa semana, no dia 21 de maio, completa exatamente 40 anos que estreou nos cinemas, nos Estados Unidos, Star Wars: Episódio V: O Império Contra-Ataca. Até hoje o preferido de muitos fãs, tanto os mais velhos até mesmo os mais jovens que ainda nem sonhavam em nascer nessa época. Mas após todos esses anos, qual o legado que esse filme deixou no imaginário popular e por que ele é tão importante para toda a franquia? Se o primeiro Star Wars de George Lucas redefiniu o cinema blockbuster (antigamente conhecido como "arrasa-quarteirão") e revolucionou os efeitos visuais com a criação da Industrial Light & Magic (ILM), por que O Império Contra-Ataca ainda é tão importante e, talvez, o melhor filme da saga?

Diferente de Uma Nova Esperança (1977), dessa vez George Lucas preferiu ficar no background. Primeiro chamou Leigh Brackett para realizar o roteiro. Brackett era conhecida por fazer romances e roteiros de cinema de ficção científica durante as décadas de 40 até 70, no entanto, antes de terminar o roteiro de Episódio V, acabou falecendo de câncer em 1978. Lucas então pegou os rascunhos de Brackett e entregou nas mãos de um jovem Lawrence Kasdan, que mais tarde se tornaria altamente renomado pelo seu trabalho feito no primeiro filme de Indiana Jones: Os Caçadores da Arca Perdida (1981).

Para completar o seu time, Lucas procurou Irvin Kershner para assumir a cadeira de direção. Kershner havia sido professor do criador de Star Wars enquanto estudava na Escola de Artes Cinematográficas da Universidade do Sul da Califórnia. E ninguém melhor do que o mestre do mestre para executar o que seria um dos melhores filmes da franquia.

Mas afinal, por que Império Contra-Ataca é genial?

Episódio V é genial porque é diferente. Diferente de tudo que talvez já tenhamos visto. É tão diferente que ele começa com o nome "Episódio V"! Tá bom, você não entendeu, né?

Quando Star Wars foi lançado, ele não tinha o nome "Episódio IV – Uma Nova Esperança". Na verdade, o filme não tinha nem esperança de um dia ser lançado, quem diria uma sequência. Por isso, até mesmo aqui no Brasil, o longa chegou apenas com o título "Guerra nas Estrelas". Entretanto, quando fez uma enorme bilheteria e se tornou um ícone cultural os sabres de luz e a figura de Darth Vader, Lucas então teve a oportunidade de executar tudo o que tinha em mente para a sua saga. Foi naquele letreiro inicial de Império Contra-Ataca que pegou todos os desavisados da sala de cinema de supresa ao avistar o nome "Episódio V", fazendo parecer que entre o filme de 1977 e o de 1980 tenha tido outros três filmes e ninguém sabia.

Império Contra-Ataca é o primeiro e talvez o único filme de toda a trilogia que não tem uma única vitória – eles perdem em Hoth, Han Solo (Harrison Ford) é colocado em coma na carbonita, Luke (Mark Hamill) não consegue finalizar seu treinamento em Dagobah pois se sente no dever de salvar seus amigos da cilada arquitetada pelo Império na Cidade das Nuvens, ele perde de Darth Vader no final, quando lhe é revelado a verdade sobre ele ser seu pai, e, por pouco, não fosse seu link com a Força entre ele e Leia (Carrie Fisher), ele teria morrido.

Imagine quantos filmes são desse jeito? Logo no primeiro ato do filme, eles já começam perdendo tudo. Não é tipo de filme que guarda o melhor para o final. No início, na tomada em Hoth, já temos o Império vs a Rebelião. Quantos filmes são assim? Na cultura pop, é raro vermos os heróis perdendo logo no Ato Um. Em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001), Harry (Daniel Radcliffe) se mostra brilhante em execução da magia, em quadribol, tudo. Em Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), Steve Rogers (Chris Evans) tem sucesso na sua primeira missão, durante o resgate dos soldados presos na base da Hydra. Em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001), Frodo (Elijah Wood) escapa por um triz dos Cavaleiros de Nazgul e chega em Valfenda, mas mesmo assim sendo bem-sucedido. Até mesmo em Episódio IV – Uma Nova Esperança, Luke tem sucesso ao fugir dos troopers em Tatooine. Isso não significa que esses filmes são ruins, mas revela como O Império Contra-Ataca é muito diferente de outras histórias que seguem a mesma premissa da Jornada do Herói, de Joseph Campbell, obra que trata sobre a jornada de um protagonista da saída de seu mundo ordinário para um mundo repleto de desafios que vão mudá-lo totalmente. Isso é presente nas narrativas desde muito antes do cinema, pois já na Grécia Antiga, existia esse padrão no teatro.

Luke finalmente alcança a maturidade

Para que aquele rapaz jovem e inocente em Uma Nova Esperança se tornasse no Cavaleiro Jedi que vimos em Retorno de Jedi (1983), Luke Skywalker teve que perder tudo. Como mostra no ensaio realizado pelo canal The Take, que trata sobre o simbolismo da mão cortada, elemento presente em quase todos os filmes da saga, quando Luke tem sua mão direita tirada pelo sabre de Vader, ele perdeu muito mais do que acreditava, mas cresceu muito como herói. Voltando para a Jornada do Herói, um desses capítulos chama-se: "A Provação", um obstáculo que o herói tem que superar, o qual muda ele completamente dali em diante. Em Star Wars, isso ganha um sentido muito mais literal.

Nossas mãos são a nossa identidade, nossa impressão digital está em nossos dedos e é com nossos membros que conseguimos nos locomover e deixar a nossa marca no mundo ao nosso redor. Para um guerreiro, isso se torna ainda mais importante. Perder a mão ou um membro significa, para ele, como perder a sua forma de viver. Por isso, em filmes, livros e tantas outras histórias, assistimos à crise existencial vivida por um soldado que perdeu um braço ou uma perna durante uma batalha. A sua identidade é transformada pela perda. Exemplo clássico disso é o Capitão Gancho, dos contos de Peter Pan, em que, após ter sua mão devorada pelo crocodilo que vive lhe perseguindo, o gancho em seu braço esquerdo se torna parte de sua nova identidade.

Em Episódio V, a perda da mão significa o momento que Luke perde a sua inocência, quando descobre que Vader é seu pai. Por mais que depois nosso herói colocou uma mão biônica, algo nele mudou radicalmente na luta na ponte. Em Retorno de Jedi, tanto a nova mão, quanto o seu novo sabre de luz representam um Luke maduro. Ele escolheu seu próprio caminho e não está mais apenas seguindo os passos que Obi-Wan (Alec Guinness) ou Yoda (Frank Oz) haviam projetado.

Tirar a mão e a arma do oponente em Star Wars simboliza roubar o seu poder. Na luta da ponte, Vader poderia ter matado Luke naquela hora, porém ele tirou a sua mão e seu sabre de luz, que nem era dele, mas de seu pai quando ainda era Anakin Skywalker. O ensaio do canal The Take comenta que ao Vader fazer isso, ele está "tirando o poder de Luke e moldando ele. Está tratando ele como se fosse um garotinho que não sabe o que está fazendo". Suas intenções, é claro, eram convencê-lo para o Lado Negro da Força, mas também ensinar-lhe uma lição, trazê-lo para a maturidade. Embora Luke tenha preferido morrer no frio congelante do espaço à se unir a Vader, ele amadureceu, uma vez que não era mais o mesmo rapaz inocente que vivia com os tios em Tatooine. Retomando a Jornada do Herói, pode-se dizer que Luke teve que perder algo para que pudesse evoluir.

Darth Vader se define como o vilão da trilogia

Todo mundo ama Vader, ou pelo menos conhece a sua imagem. Poucos vilões causam esse impacto. Como revela no estudo mostrado pelo canal The Nerdwriter, a soma do tempo de duração da trilogia original, Vader aparece ao todo em apenas 34 minutos, tendo maior proeminência em Retorno de Jedi. Mas, por que ele é tão icônico?

Em Episódio IV, Darth Vader é quase que uma sombra na Estrela da Morte. Ele divide o antagonismo junto com Grand Moff Tarkin (Peter Cushing), comandante da estação espacial e base militar do Império. Na verdade, Vader estava mais para um executor de Tarkin, um subordinado a ele. Por conta disso, o vilão, ainda que ameaçador, acabava fora de foco. Até então, para nós, espectadores, ele representava apenas o Jedi caído que no passado assassinou o pai de Luke.

Foi em O Império Contra-Ataca que Vader se centraliza como a maior ameaça entre o Império e a Aliança Rebelde. A fotografia, sob o comando de Peter Suschitzky e a direção de Irvin Kershner souberam usar isso a seu favor. Vader está mais em foco e, diferente de antes, agora se encontra quase sempre no centro da tela. Se reparar com bastante atenção, o capacete de Vader em Episódio IV é sujo e embaçado, enquanto neste, ele é limpo como vidro. Vale apontar os reflexos brancos nele, que dão destaque a sua forma. A própria produção, já naquela época, era tão consciente de que sua silhueta realçava mesmo fora de foco, que eles utilizam disso em cenas como quando Luke passa por sua provação na caverna ou quando Vader aparece em meio à escuridão com seu sabre vermelho para confrontar Luke, uma imagem tão bem enquadrada que parece uma pintura.

Uma breve aparição da sua cabeça despedaçada, a respiração sombria, a voz grave oferecida por James Earl Jones, a sua imagem majestosa e ameaçadora que tanto o figurino fornece, quanto a trilha sonora de John Williams e o jogo de contra-plongée com a câmera (quando fica apontada de baixo para cima) permitem com que Vader se defina como um vilão. O mistério em torno de sua identidade e a sua imagem mística ao fundo em meio às sombras remetem à morte, o perigo, o mau na sua forma mais pura, adicionando a Vader uma nova camada, tornando-o ainda mais profundo e universal.

Por que é tão bom?

Em 1997, Roger Ebert, um dos maiores críticos de cinema da história, admitiu que Império Contra-Ataca era o seu favorito dos três filmes. Ele escreveu o seguinte sobre Episódio V em sua análise do longa: "Após a alegria da ópera espacial do filme original, este mergulha na escuridão e até no desespero, e se rende mais completamente ao mistério subjacente. É por causa das emoções despertadas em 'Império' que toda a série assume uma qualidade mítica que ressoa de volta à primeira e à frente da terceira. Este é o coração."

O crítico aponta como o filme é tão rico e como é concebido de maneira tão perfeita. Temos vistas impressionantes para um filme realizado no final da década de 1970. O próprio Yoda, que racionalmente sabemos que é um boneco, ganha tanta vida com a voz de Frank Oz ao interagir com Luke, ao meditar em meio aos pântanos de Dagobah ou demonstrar orgulho, preocupação ou tristeza com seu discípulo.

A adição de novos personagens tornam essa narrativa ainda mais cativante. O carisma de Lando Carissian, com estilo matreiro e amigável de Billy Dee Williams, o perigoso caçador de recompensas Boba Fett, onde pela primeira vez vislumbramos um Mandaloriano em Star Wars e o misterioso Imperador, que finalmente revela ser quem está por atrás de tudo nos esquemas arquitetados pelo Império Galáctico.

É difícil colocar num papel qual foi legado deixado por Império Contra-Ataca. Embora não tenha ganhado nenhum Oscar, diferente de seu anterior, podemos dizer que este longa é ousado. Dentre tantas continuções de trilogias que acabam ofuscadas pela sua primeira ou terceira parte, Episódio V foi capaz de subverter e ganhar um lugar único e especial.

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