• Paulo Lídio

Aquaman | Crítica – O acerto agora é para valer?


Nós da Be Geeks acompanhamos a pré-estreia de Aquaman diretamente do painel da Warner Bros. na CCXP 2018 (Imagem: Warner Bros. / Divulgação)

Pressionado pelos recentes fracassos da DC/Warner nos cinemas, além das contantes reclamações por parte dos fãs devido a indecisão do estúdio, Aquaman acabou gerando uma expectativa muito maior do que deveria. O personagem já havia atraído o interesse dos expectadores desde seu primeiro easter egg em Batman vs Superman (2016), seguido por sua participação em Liga da Justiça (2017), uma das poucas qualidades extraídas do longa. Sob o comando de James Wan, renomado diretor de Hollywood com sucessos como Jogos Mortais (2003), Invocação do Mal (2013), Velozes e Furiosos 7 (2015), dentre outros, o filme deu um novo ar para a Warner Bros. nos cinemas. A principal escolha por parte de Wan na produção do longa foi a da base de pesquisa. O filme é focado no Aquaman presente nos quadrinhos dos Novos 52, com grande participação do quadrinista brasileiro Ivan Reis, onde temos uma visão completamente renovada de Arthur Curry. Se antes o Rei de Atlântida era considerado uma chacota no meio dos demais heróis da Liga da Justiça, hoje seu reconhecimento é muito maior. Muito se deve também a escolha inicial do estúdio, ainda em 2015, ao escalar o ator Jason Momoa no papel. Sua aparência imponente fez os fãs esquecerem completamente a falta de aparência com o Aquaman dos quadrinhos, loiro e de olhos claros, trazendo uma nova roupagem: ogra, badass e que faz jus a jornada de origem mostrada durante todo o longa.

A química do casal Mera e Aquaman é fundamental no desenvolvimento do filme (Imagem: Warner Bros. / Divulgação)

Todavia, se vamos valorizar a escolha do material base e de Jason Momoa para o papel, os elogios também devem ir à Warner. Escolher um diretor como James Wan para dirigir um filme de super-heróis pegou muitos de surpresa, principalmente devido a seu histórico com produções de terror. Entretanto, suas técnicas visuais mostraram que essa bagagem acabou sendo fundamental na construção do Reino de Atlântida. O espetáculo que o expectador encontra no mundo marinho faz com que nosso imaginário trabalhe com a hipótese de tudo aquilo ser real, trazendo uma imersão gigantesca e nos deixando de boca aberta com tanta riqueza nos detalhes. Inclusive fazendo o máximo possível para conferir o longa em IMAX, onde com certeza esse potencial dobrará de valor com a tecnologia máxima a disposição no momento. A escolha de filtros para o filme provou também que James Wan é um profundo conhecedor do atual universo de filmes da DC no cinema. Se em cenas mais tranquilas conseguimos ver uma profunda valorização das cores, algo elogiado em Esquadrão Suicida (2016) e Mulher Maravilha (2017), também podemos perceber um tom mais escuro em momentos sérios e de batalhas, algo característico e imposto por Zack Snyder em Homem de Aço (2013) e Batman vs Superman (2016). Saber valorizar e achar o meio termo entre antigo e fundamental mostra que a escolha do diretor não poderia ter sido melhor.

O roteiro de Aquaman acaba sendo o único ponto abaixo da média durante todo o longa. Claro que quando um filme de super-herói é feito, espera-se a boa e velha “jornada do herói”, que consiste em mostrar todo o processo de adquirir poderes, saber utilizá-los, fracassar e depois obter a redenção. Porém, dada a grande qualidade de James Wan na direção, fica fácil sentir que havia muitos materiais a serem utilizados e que possibilitariam uma história densa e que puxasse ainda mais o público para a trama. Mas, é necessário analisar esse quesito com ressalvas, visto que a insegurança da DC/Warner para com o longa era gigantesca, com a imprensa inclusive especulando um “reboot” do Worlds of DC em caso de fracasso. Vale também citar a preocupação dos roteiristas em separar Aquaman dos demais filmes do universo expandido. Durante o longa, poucas referências e conexões são feitas com outros heróis, o que acaba sendo um desperdício se levarmos em conta que Arthur Curry aparece nas telonas desde 2016, em Batman vs Superman. Se realmente a Warner Bros. pretende ignorar o que foi feito no passado, que realmente faça um reboot. Mas, se o caso é manter esse universo expandido, então que mantenha uma linha firme e coerente para reciclar o que ainda possui muito potencial.

Nomes de peso foram encorpados ao elenco, o que gerou uma expectativa muito grande para o sucesso do longa. O casting não poderia ter sido melhor e foi provado que Jason Momoa será por um bom tempo o Aquaman definitivo dos fãs. Sua atuação não é espetacular a nível de um vencedor do Oscar. Entretanto, consegue levar o expectador ao tão aclamado “fã service” dos dias atuais. Um herói que não aceita o fato de ser o Rei de Atlântida, com seus traumas e feridas do passado, que opta por uma vida pacata e solitária, mas que expõe isso para o mundo com muito mal humor, sarcasmo e piadas precisas. Seu porte físico contribui muito também para as cenas de ação, onde o ator recusou em diversas oportunidades a presença de seu dublê, o que mostra um engajamento e participação ainda maior nas telonas. Enquanto alguns fãs criticaram a presença da até então Princesa Mera (Amber Heard) em Liga da Justiça (2017), a opinião tende a mudar no filme solo do herói dos mares. Antes relegada a apenas uma curta participação como par romântico, a atriz conseguiu impor respeito e mostrar o seu papel de importância na trama, onde em muitos momentos rouba a cena do protagonista e mostra que o futuro das heroínas é cada dia mais promissor. Indo mais além, a química do casal Aquaman/Mera torna-se perfeita, sem cair demais nos clichês de casais em filmes de super-heróis.

Os coadjuvantes (apenas uma mera terminalogia para nomes de peso como os que serão citados abaixo) fazem jus a sua presença no longa, fazendo que o público em sua grande maioria se engaje no universo que ali lhe foi apresentado. A Rainha Atlanna (Nicole Kidman) mostra o sacrífico e os limites que uma mãe pode chegar para proteger seu filho, contando com uma performance perfeita da atriz vencedora do Oscar. Vulko (Willem Dafoe) justificou o porquê da produção esconder tanto seu papel em trailers e materiais exclusivos, realizando com maestria o papel de mentor e guia do Aquaman na trama, inclusive, levando os expectadores a torcer para ele em muitos momentos do filme. Fechando a sessão de “coadjuvantes de luxo” temos o Rei Nereus (Dolph Lundgren), que apesar de possuir um papel relativamente ativo no longa, serve mais como o ponto de ameaça que o ator consegue passar na telona, levando um bom ar de imponência e respeito que um rei deve passar. Aliás, não haveria escolha melhor para esse papel do que Dolph Lundgren, uma vez que sua história na cultura geek vem subindo a cada ano com papéis no mundo dos heróis.

Se temos bons protagonistas no lado dos heróis, temos também bons antagonistas. Um dos principais problemas dos filmes da DC/Warner foram aqueles que em tese deveriam ser as ameaças principais dos heróis. General Zod (Homem de Aço, 2013) e Lex Luthor (Batman vs Superman) conseguiram ir relativamente bem em seus papéis e agradar público e crítica. A sequência, porém, foi desanimadora com Magia (Esquadrão Suicida, 2016), Ares (Mulher Maravilha, 2017) e Lobo da Estepe (Liga da Justiça, 2017), onde fomos introduzidos a vilões com fracas motivações, além da exaustiva falta de coerência e afinidade com o público. De cara, o filme preferiu levar às telonas os dois maiores vilões do Aquaman, o Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II) e Mestre dos Oceanos (Patrick Wilson). Enquanto o primeiro possui uma fidelização absurda com o traje dos quadrinhos, a sua motivação acaba sendo forte e convincente ao grande público, envolvendo uma trama familiar e traumática com o Aquaman. Já o segundo, que é meio-irmão de Arthur Curry, nos leva a refletir o porquê de em certos momentos não concordarmos com ele. É sempre importante construir vilões, tanto para evidenciar que nossos heróis não são assim tão perfeitos, quanto no quesito de refletir se realmente certas atitudes podem ser encaradas como vilania.

É certo que dificilmente Aquaman será o melhor filme do ano, mas para os fãs que estavam preocupados com o futuro da DC nos cinemas, o sentimento é de alívio. O longa é um dos melhores de 2018, mostra que o futuro da Warner Bros. segue vivo e que James Wan pode ter um papel importante no futuro do Worlds of DC, pois até agora ele foi quem soube melhor dosar a tonalidade de um filme do estúdio. Que o futuro da DC seja um reinado tão glorioso quanto o de Arthur Curry, o legítimo Rei de Atlântida. Nota: 4,5/5

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