• J.V. Vicente

13 reasons Why – Crítica 2ª Temporada – Uma renovação de parâmetros


Alerta: Essa crítica contêm spoilers da primeira temporada para que se possa debater melhor o contexto da analise.

A série 13 reasons why conta a história por trás do suicídio de Hannah Baker, que antes de morrer, deixa treze fitas contando os motivos que a levaram a cometer o ato. A trama se baseia no livro homônimo de Jay Asher, e é adaptada pelo diretor Brian Yorkey.

A primeira temporada foi envolta de polemicas por retratar temas pesados de maneira crua e graficamente forte. As cenas de abuso, violência e suicídio são só algumas das muitas coisas que marcaram a série. A trama de 13 episódios mergulhou profundamente em discussões sobre o abuso infantil; relacionamento humano; assédio; bullying; hipocrisia, machismo e estupro.

Pode-se dizer que a segunda temporada não é melhor e nem pior que a primeira, mas sim diferente. Ao que parece, os produtores ouviram as críticas do primeiro ano e investiram em uma coisa mais “leve”. A segunda temporada é mais dinâmica, não apresenta episódios massantes e depressivos. A série soube trabalhar muito bem a montagem, alternando momentos de reflexão, com os momentos de ação, drama e até intervalos de humor.

Os produtores fizeram o que prometeram; se a primeira temporada é a história do ponto de vista de Hannah, a segunda é a história do ponto de vista dos outros personagens. O passado da jovem ganha mais detalhes, coisas que não estavam nas fitas, que chocam o publico. O espectador tem a sensação de que a garota não foi totalmente honesta em suas afirmações. Não que Hannah tenha se tornado a errada, você apenas se identifica com os sentimentos de Clay e dos Baker e passa a se sentir um pouco traído pela narrativa da jovem na primeira temporada. As razões dela para omitir certos detalhes são compreensíveis, mas ainda assim, as revelações feitas nas cenas do tribunal chocam a todos.

As sequências do juri e o modo como foi feito o paralelo entre flashbacks e a história do ponto de vista dos outros personagens, durante seus depoimentos, foram brilhantes. Claro, algumas vezes o espectador se perde, não sabendo aonde foi que o depoimento terminou, mas consegue ver como os outros personagens contribuem para a narrativa.

O grande destaque de 13 reasons why é justamente não abordar seus personagens com apenas um lado. Ninguém é puramente bom ou mal. Percebemos que os personagens são humanos, sujeitos a falhas, egoismo, raiva, desconfiança, medo, tristeza e solidão.

Hannah brilhou no primeiro ano, mas desta vez foi possível focar em personagens dos quais o público queria mais. Entre esses personagens, Tony Padilha. A trama se aprofunda na personalidade e nos problemas do rapaz; são reveladas suas motivações e a razão pela qual Hannah o escolheu como o guardião das fitas; a amizade dos dois é melhor explicada.

Outro personagem que teve mais tempo de tela foi Zach. Sua trama é mais desenvolvida e sua participação mais bem trabalhada. A maneira como o roteiro abordou a dualidade de Justin Foley foi impressionante; o modo como o garoto vira um aliado é bem feito, e o público entende que ele não virou um mocinho, ele ainda possuí seus próprios demônios para combater. Outro ponto curioso é a sua relação com Clay Jensen; os dois formam uma dupla imprevisível que só se vê nas séries da Netflix, como foi o caso de Steve e Dustin na segunda temporada de Stranger Things.

Mas é claro, nem tudo são flores. O arco de redenção e arrependimento dos personagens Courtney, Sheri e Ryan geram empatia no publico. Porém, eles aparecem pouco e são subdesenvolvidos.

O arco de superação de Jessica e Alex é uma das excelências da série. O modo como é trabalhado o sentimento de remorso e impotência do rapaz são bem emotivos. A forma como a trama aborda a garota; seu medo, dor e sua busca por superação são trabalhadas de forma tocante.

O destaque novamente está em Clay Jensen, sua natureza descente, seu distúrbio mental e sua vulnerabilidade são mais aprofundadas; o garoto é bom, mas ao mesmo tempo acaba sendo infantil; é corajoso e justo, mas também está sujeito a agir como um babaca ciumento. Mas no ultimo episódio não sobram duvidas de que Clay literalmente é o herói da série. E não é o típico herói invencível, forte e confiante, ele é vulnerável e nada atlético, e isso é uma boa coisa, a essência do personagem está justamente em sua natureza imperfeita, porém bondosa.

Agora, todo herói tem um vilão, e se existe um personagem que é sim uma coisa só, uma coisa ruim, é Bryce Walker. Nessa temporada o vilão ganha mais camadas, a série se aprofunda na sua natureza cruel e sádica; as facetas do rapaz como um predador sexual e emocional são explicadas de maneira que o espectador tem uma visão completa de sua imoralidade.

A segunda temporada se perde ao falar sobre coisas que aparentemente estavam escondidas na Escola Liberty o tempo todo; as subtramas e mistérios adicionados; os detalhes não contados por Hannah em suas histórias não são bem explicados; são coisas inventadas para preencher a história com elementos mais complicados e ampliar as discussões tratadas na série.

A série volta a falar dos temas anteriores, se aprofundando na questão da cultura do estupro e no bullying. A trama também vai além, e inicia discretas discussões sobre a questão do controle de armas, a corrupção e a improbidade administrativa.

Nas cenas sobre dificuldades de relacionamento interpessoal, a série conseguiu desenvolver uma estética menos pessimista e mostrar que existe esperança; e quando não houver, nem sempre será culpa de alguém. Se na primeira temporada se afirma que é preciso fazer mais pelos outros, na segunda fica claro que nem sempre, por mais que se esforce, é possível ajudar; existem magoas e cicatrizes que não podem ser saradas.

A segunda temporada de 13 reasons why surpreende ao ter uma nova estética. A série se renovou em diversos aspectos e soube balancear todos os temas que aborda. Os episódios saíram da monotonia do ultimo ano e os momentos permitiram aos personagens se soltarem e ter seu momento de fúria. As cenas graficamente violentas e tensas não mudaram e é preciso estar preparado para ver coisas chocantes, destaque para uma cena do ultimo episódio. Não se pode dizer que não há falhas, mas as sensações imprevisíveis que a trama passa para os espectadores se mantiveram e até melhoraram graças aos plot twits.

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