• Alexandre Agassi

Killmonger: O Melhor Vilão da Marvel


Este texto contém spoilers de Pantera Negra (2018)

O lançamento de Pantera Negra (2018) provocou tamanho alvoroço nas últimas semanas nas redes sociais (Facebook e Twitter principalmente). Importante para toda a comunidade negra ao redor do mundo, o longa é um marco na representatividade. Não por ser o primeiro, pois já tivemos heróis negros antes. No entanto, Pantera Negra se propõe a debater o racismo de maneira mais aprofundada.

Na trama temos Erik Killmonger, interpretado por Michael B. Jordan, ator já reconhecido mundialmente por seu ótimo trabalho em Creed (2015), também do diretor Ryan Coogler. Aqui Jordan é novamente excelente e não nos deixa dúvidas de que em breve ele estará recebendo um Oscar. No filme, Killmonger inova quando não cai no clichê de vilão da Marvel: a velha bobagem de “dominar o mundo”. Logo, pergunta-se: quais são as motivações dele então? Killmonger busca por vingança contra as ações cometidas pelos brancos no passado. Ele canaliza a raiva que guarda desde o assassinato de seu pai e todas as injustiças ocorridas ao longo de sua vida e pretende jogar contra o mundo quando alcançar o trono de Wakanda.

"Tomada da Bastilha", Jean-Pierre Louis Houël, 1789

Killmonger se propõe a resgatar os ideais da Revolução Francesa, em que as camadas populares eram sufocadas pelo poder de quem tinha muito dinheiro e por isso se rebelaram e juraram vingança contra a monarquia. Estabelecendo este paralelo com o vilão de Pantera Negra, as camadas populares seriam os negros jogados na pobreza e concentrados nos guetos, onde sofrem uma concorrência desleal com pessoas de classes mais altas que possuem mais oportunidades.

Killmonger seria o típico “oprimido que quer se tornar o opressor”, como já diria o pensador brasileiro Paulo Freire. Isso porque esses são os verdadeiros anseios do vilão. Ele não luta por igualdade, e sim pela guerra. Ele quer se tornar o rei de Wakanda para utilizar de todos os recursos financeiros e tecnológicos com o propósito de destruir qualquer um que se oponha aos seus ideais.

Um dos questionamentos feitos ao longo do filme é: “Por que Wakanda com tanta riqueza e tecnologia não ajuda o resto do mundo?” Ou melhor: “Por que eles não ajudam os negros de outras nações?” É interessante essa pergunta porque ela se parece muito com o que muitos afro-descendentes refutam atualmente: “Por que seus próprios ancestrais contribuíram com os brancos ao capturar, escravizar e vender pessoas de sua própria etnia?”

Na verdade, essas indagações são boas porque estabelecem a primeira das dicotomias apresentadas no filme.

Nacionalismo versus Identidade Racial

Ilustração da ocupação europeia na África

Até o século XIX, a África era dividida em incontáveis tribos, diversos povos com seus próprios costumes, religião etc. O pensamento daquele tempo era muito mais voltado para a ideia de nação, de isolamento. Prevalecia-se naquela época o conceito do nacionalismo. Por isso, muitas guerras eram travadas entre os povos, e quanto aos perdedores, estes eram escravizados. Assim, quando se deu início a colonização da América, os europeus passaram a negociar com povos africanos com o objetivo de trazer escravos para trabalhar nas fazendas.

O continente africano como conhecemos hoje possui essa divisão de países por causa dos europeus. Enquanto as nações latino-americanas declaravam suas independências, a África era um ótimo lugar ainda a ser explorado. Povos africanos foram obrigados a conviver juntos e todo o mapa foi redesenhado de acordo com a vontade do homem branco. O apartheid nasceu, marcando como um dos períodos mais obscuros da humanidade, enquanto do outro lado, na Europa Ocidental, a Belle Époque ressaltava nas artes como era prazeroso ser burguês e branco.

Membros dos Panteras Negras

Foi somente na segunda metade do século XX que a ideia de identidade racial começou a surgir graças à independência dos países africanos e aos movimentos contra o racismo nos Estados Unidos, dentre eles os Black Power e o Partido dos Panteras Negras.

No filme, Killmonger cresceu no gueto de Oakland, nos Estados Unidos. Ele visualizou todo o sofrimento dos negros. O tratamento diferenciado dos policiais, o sistema carcerário precário que abriga em sua maioria negros, a dificuldade em arranjar emprego, ingressar numa universidade, dentre outros fatores graves. Por isso ele carrega essa concepção de identidade.

Paralelamente, Wakanda opta por um sentimento nacionalista. Para eles, o mundo se divide apenas na população de Wakanda e os outros. A explicação para tal é em decorrência da necessidade de se fechar para o mundo e criar uma cidade escondida no meio da floresta quando os europeus chegaram para colonizar a África. Dessa forma eles mantiveram o metal que os torna tão avançados, o vibranium, seguro de mãos estrangeiras. Portanto, foi o isolamento deles que acarretou no fortalecimento deste pensamento nacionalista, o que nos leva à próxima dicotomia.

Tradicionalismo versus Progresso

Mesmo sendo a nação mais tecnológica do planeta, Wakanda é um país muito tradicional. A cultura e os costumes deles são extremamente valorizados. Há um enorme respeito e culto aos ancestrais. Existe até mesmo um senso de obrigação do rei T’Challa em reproduzir os ensinamentos dos antigos monarcas a fim de preservar a ordem e deixar as coisas como estão. Aqui nota-se uma tendência ao conservadorismo e ausência de um ar de mudança.

O conflito irrompe justamente com Killmonger, que se opõe radicalmente contra esse modelo conservador. O vilão sente a necessidade gritante de Wakanda se abrir para o mundo para ajudar seus iguais contra o racismo.

Killmonger é sedento pelo progresso mesmo que isso signifique ter que destruir o passado. Curiosamente neste ponto ele nos faz recordar do vilão Kylo Ren (Adam Driver) em Star War: Os Últimos Jedi, que afirma: “Deixe o passado morrer. Mate-o, se for preciso. É o único jeito de cumprir o seu destino.” Para representar literalmente esta concepção está a cena em que Killmonger ordena o incêndio da plantação da erva que oferece os poderes sobre-humanos ao Pantera Negra (Erva-coração).

Cena do filme - Killmonger contempla o incêndio das plantações de erva-coração

O tradicionalismo e o nacionalismo de Wakanda são o resultado do isolamento da nação. O que leva à última dicotomia do longa a ser explicada.

Isolacionismo versus Colonialismo

Como já esclarecido, Wakanda isolou-se do mundo para proteger o vibranium. Ou pelo menos este é o álibi usado para reforçar as ideias conservadoras.

Killmonger, por outro lado, critica essas políticas protecionistas e defende uma abertura. Ele presenciou todo o preconceito, e por isso acredita que tudo se divide apenas em quem é “colonizador” e quem é “colonizado”. Para o vilão, Wakanda deveria se abrir para o mundo, armar os negros com o poder bélico ultra avançado que possui e travar uma guerra sangrenta contra quem ele considera “colonizador”.

A Doutrina do Meio Termo

Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, diferenciou aquilo que são vícios e virtudes. O filósofo atribui o significado do que é virtuoso para aquilo que pode ser considerado como moderado. De acordo com ele, a felicidade não se encontra nem na falta, nem no excesso. Tudo deve estar no meio, no intermediário entre os extremos, pois os absolutos nunca fazem bem ao ser.

Cena do filme - Coroação de T'Challa

É neste conceito aristotélico que podemos identificar o herói Pantera Negra (Chadwick Boseman). Inicialmente, T’Challa é coroado e torna-se o rei de Wakanda apenas por ser o escolhido a dedicar-se ao trono. Ainda era apenas mais um rei disposto a reproduzir todos os erros e acertos de seus antepassados. Porém, a introdução de Killmonger na história foi o que mudou tudo.

A aparição do vilão modificou filosoficamente o herói. Logo T’Challa desvenda os erros no passado de seu pai e passa por um importante processo de transição. Ele repensa seus conceitos e passa a ver o mundo de uma nova forma. Agora ele nota que a necessidade de ajudar o planeta é mais relevante que proteger o vibranium, mas não travando uma guerra como pensa Killmonger. O herói crê que a solução não é criando mais diferenças, e sim desfazendo elas com a finalidade de gerar mais união. T’Challa encontra um meio termo entre essas dicotomias e prova que elas são falsas.

O desfecho da história com o discurso de T’Challa na ONU simboliza que o isolamento e o colonialismo são soluções para nada. Que não é preciso abandonar tradições para alcançar o progresso, já que pode-se encontrar um equilíbrio entre esses dois lados capazes de andar juntos. E que mais importante que nacionalismo ou identidade racial está o humanismo, o entendimento de que todos somos humanos, uma única raça, iguais em quase tudo e ao mesmo tempo em quase nada. A solução está na aceitação das diferenças e numa melhor comunicação entre as pessoas.

Cena do filme - T'Challa na ONU

FONTES:

Why Killmonger Is the Greatest Villain Ever

https://medium.com/@wyattpatrick/why-killmonger-was-quite-possibly-the-greatest-villain-ever-on-screen-2a1288413065

Is Black Panther's Killmonger the Best Villain Since the Joker?

https://www.youtube.com/watch?v=KUgO7NtgNF0&t=507s

Aula 8 - Filosofia - Aristóteles: O Ser, o movimento e as virtudes

https://www.youtube.com/watch?v=5Qk6xDtAzT4&index=8&list=PLHJOmbte9UXXsFwgCk_6GEc80lMZgjVpP

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