• Por: Alexandre Agassi e J.V. Vicente

O Justiceiro | Crítica - Melhor série da Marvel?


Justiceiro, a nova série da Marvel / Netflix, adaptou o icônico personagem de quadrinhos Frank Castle de uma forma aceitável às discussões sociais do nosso tempo.


Conhecido pela natureza violenta e seus controversos ideais, o Justiceiro é um dos maiores anti-heróis dos quadrinhos. Militar e ex-fuzileiro, Frank (Jon Bernthal) perdeu a família em um tiroteio de gangues e iniciou uma guerra atrás dos assassinos de sua esposa e seus filhos.


A série recente do personagem apresenta um ambiente realista e dramático. Os criadores da história não tiveram receio em compor cenas com intensa violência. As cenas de assassinato, espancamento e tortura são cruas e brutais a ponto de serem grotescas. Isso não é uma coisa ruim ao pensar que a trama trata sobre um dos personagens mais violentos dos quadrinhos.


A violência não é tão direta como nas HQs em abordar o caráter sombrio do personagem. Em nenhum momento Frank se questiona sobre seu comportamento, porém não há também uma abordagem pura de seu caráter assassino. A história serve como um espelho para várias das situações políticas que rodeiam o mundo.


Assim como nas séries anteriores da Marvel / Netflix, a série do Justiceiro utiliza deste personagem para refutar problemas sociopolíticos presentes nos Estados Unidos. O uso legal de armas de fogo contribui para aumentar a violência urbana? E quais os efeitos que a guerra interminável no Oriente Médio traz para os soldados americanos?


A trama de Justiceiro parece ter pegado a temática de Sniper Americano e diluído na história de um personagem fictício famoso para que ficasse menos intensa que o longa do diretor Clint Eastwood. O estresse pós-traumático vivido por esses soldados americanos é o principal ponto de discussão. Isso é representado por meio de um dos melhores personagens da série, Lewis Wilson (Daniel Webber). Marcado por dilemas internos, a saudade de receber ordens, matar pessoas e de dormir em trincheiras atormentam a nova vida de Lewis, que agora vive muito distante disso. Em outras palavras, Wilson se sente incomodado com a própria liberdade.


Em contrapartida, os diálogos são feitos de altos e baixos. Nos primeiros episódios, eles são muito bem construídos, tendo momentos marcantes como quando Frank explica para Micro (Ebon Moss-Bachrach) que a mente humana anseia pela rotina. Contudo, da metade para o final esses diálogos brilhantes desaparecem, dando lugar para falas clichês e pouco criativas. Os episódios ficam mornos e com cenas extensas e às vezes completamente desnecessárias. Volta-se a melhorar apenas no último episódio da temporada, que fecha muito bem todos os arcos desenvolvidos ao longo da série.


Com treze episódios, o seriado se mantém na qualidade e independência em relação aos seus antecessores. Um dos problemas é que quem não viu a segunda temporada de Demolidor vai ficar um pouco perdido em alguns pontos que mencionam a vingança de Frank.


A série tem personagens profundos e complexos. Os atores têm desempenhos excelentes. Ben Barnes apresenta grande talento e originalidade como Billy Russo. Outro que também tem um bom papel é o Micro, que surpreende bastante o espectador por evoluir tanto durante a série. No elenco feminino, Amber Rose Revah se destaca por uma ótima atuação como a agente da Segurança Nacional Dinah Madani. Deixando para o final, não tem como não comentar sobre Jon Bernthal. Não só porque ele é o protagonista, mas também pelo fato dele marcar a melhor atuação. Assistir a sua performance como o Justiceiro é até um pouco assustador. Sua voz ameaçadora e seu olhar vazio e frio como o de um assassino convencem tão bem que é como se ele tivesse vivenciado tudo aquilo na vida real.


A fotografia e a montagem conseguem ser muito primorosas. A ótima execução das cenas de luta comprova isso. E da mesma maneira com que cada série da Netflix / Marvel cria uma identidade visual para cada herói (Demolidor e variações de vermelho, Jessica Jones e roxo, Luke Cage e azul e amarelo), Justiceiro não fica de fora. Dessa vez são as cores neutras, nas quais prevalecem o cinza e o preto.


Para finalizar, Justiceiro é uma das melhores séries desse ano de 2017. E apesar de enfraquecer na metade, o seu conteúdo denso e repleto de debates de grande relevância social preenche bem esse problema. É uma série que mostra como algumas pessoas anseiam pela privação de seus próprios direitos. Como para elas, viver é a necessidade de receber uma ordem. Como para elas, a liberdade é algo para se ter medo.

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